Não pairam dúvidas sobre a necessidade de fechar a porta de casa quando se entra ou sai à rua, tampouco sobre a necessidade de demarcar as fronteiras de nossas propriedades ou de nosso país. Porque, então é tão constrangedor aos pais delimitarem as liberdades aos filhos? Frequentemente tornamo-nos permissivos por constrangimento, complacentes com os riscos, omissos na hora de agir. Muitas são as imagens que nos afirmam, no senso comum, que pai e mãe bom é aquele que diz sempre sim!
Ledo engano! Para sermos pais decentes, presentes, indispensáveis, cabe o discernimento de fazer escolhas para garantir o desenvolvimento saudável de nossa prole. Muitas são as vezes que a maior expressão do amor pelos filhos se expressa pelo não! dito de forma singela mas firme. Sem possibilidade de outras negociações. Trocar o não! pelo sim... só para fugir da insistência do filhote expõe uma centena de coisas e acaba por demonstrar insegurança e, pior que tudo, negligência. Isto, de forma alguma, significa que diante de uma argumentação bem feita, não possamos rever nossa decisão. Ceder à birra, à batida de pé, à manha não os ajuda a crescer e demonstra pais em ação imatura, oferecendo ao filho a eterna imaturidade.
Os pais, na verdade, enfrentam-se, através dos desafios propostos pelos filhos, todo dia, o dia todo, nesta colcha de retalhos que o cotidiano nos oferece na tarefa de 'educar' seres para o terceiro milênio, uma série de escolhas nem sempre fáceis ou explícitas a fim de garantir o desenvolvimento tranquilo e saudável dos guris. Seja no pedido da bala antes do almoço, seja para ficar na rua por mais tempo, seja para ir para a casa do amigo, seja para ver televisão por mais tempo, todas são confrontações que levam à construção de conceitos para o resto da vida. Devemos guardar os 'nãos' para o que nos é importante, sem, com isto, perder a capacidade de revisarmo-nos... Permitir que o filho exercite sua capacidade de argumentação, que apreenda a buscar razões que fundamentem sua necessidade é a forma de garantir a construção de cidadãos corretos, dignos do pleno exercício da cidadania e dos direitos humanos.
Não encompride o assunto além da sua decisão, mas permita que ele volte sempre a questionar... Dê o assunto por encerrado, mas mostre-se aberto ao debate. Afinal é neste ir e vir que a vida anda à frente. Amadurecer, no sentido humano da expressão, é tornar-se capaz de avaliar alternativas e fazer opções, experimentar o livre arbítrio através da segurança de pais coerentes.
Os adultos, com frequência, têm muita dificuldade de valorizar a diferença de opiniões, mas vale ressaltar que é na confrontação de idéias que a roda do mundo gira e anda. Outra confusão que acontece muitas vezes é a de, diante das dificuldades de argumentação de quem tem o poder familiar, impor a decisão pelo uso da força física ou psicológica, numa sessão de palmadas, por exemplo. Elas demostram com clareza o quanto faltam argumentos para defender a decisão. Outras vezes, o subterfúgio da chantagem é que ganha espaço, fazendo trocas inescrupulosas. Por outro lado, é preciso desenvolver o sentido de responsabilidade diante das escolhas, tanto nos pais quanto para os filhos, a fim de exercitar o senso de justiça.
Tornar-se pai ou mãe de uma prole saudável exige maturidade, discernimento e compromisso com o outro, mais que tudo... e isto espera presença, capacidade de olhar o mundo com disponibilidade e inteireza. Nenhum destes produtos morais estão à venda nos shoppings center da vida!
*Ana Elusa Rech é membro da Nossa Casa e trabalha com a defesa de Direitos Humanos, especialmente de mulheres, crianças e adolescentes.
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